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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Dor

Dói ainda, por demais, este "eu sem ti", quando ainda em sonhos me surges, me maltratas e me deixas só e lavada em lágrimas. Dói, como ontem, e o fizeste e te foste, e em repeat me massacras agora em sonhos. Não dói por te querer deste jeito, mas por te querer do jeito meigo a que um dia me habituaste, e por tu não quereres mais. Dói pela culpa que o teu olhar me incute quando a tua imagem passeia pelos cantos das minhas memórias. Dói pelas palavras ásperas, e pelos silêncios cortantes que me lançaste como armas de defesa, quando eu nunca te ataquei. Dói por saber que seguirás a tua vida sem o peso que carrego no peito, e me arrasto pelo chão. Dói saber que no fim, fiz isto mais por ti que por mim, e ainda hoje me questiono como estarás e se a tua vida está a seguir o caminho que pretendias. Dói saber que nenhum de nós estava feliz, mas que só eu tentei dar-te a felicidade. Dói saber que não cheguei. Que não fui suficiente. Dói saber que me fui anulando, que joguei fora expectativas e necessidades para dar lugar às tuas, e que por isso hoje tenho um caminho mais longo a percorrer para voltar a mim. Dói saber que doeu por longo tempo, mas me mantive na dor com esperança que desse lugar de novo à felicidade. 
Hoje, sorrio na esperança que a felicidade volte, e engano a dor por uns momentos esquecendo que a parte que de mim partiu para dar espaço a ti, está agora vazia. 
Engano o mundo com o meu sorriso, mas as estrelas sabem a mágoa que te carrego e o amor que ainda tinha para te dar.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Silêncio

É uma tempestade, de vento chuva neve e frio. Gela-te até aos ossos, que já nem sabes se te pertencem, já nem sabes se pertences a este mundo, tão enevoado aos teus olhos, Será que te vais agora? Ou será que ficas mais um pouco? 
"Porque não ficas?" exclama um mundo travesso para ti. "Há tantas possibilidades..." diz ele, rindo nas tuas costas enquanto te prepara a próxima partida. "dá me a tua mão e eu ajudo-te a levantar" enquanto te esforças para levantar uma mão que parece já não ser tua, e tem a vontade própria de permanecer no chão. E o mundo vai embora rindo entre dentes "Já que não queres ajuda fica então aí". e ficas só.
Não te importas de estar só. Às vezes esqueces-te do medo da escuridão e sentes-te bem em silêncio. Gostavas que calasse também os teus pensamentos, como pessoas que riem de ti enquanto te observam ai deitado no chão frio e molhado de olhos baços sem vontade de levantar. Poderás ficar tu aí eternamente enquanto se riem de ti, ou será que os fantasmas seguirão a sua vida, e tu ficarás finalmente no silêncio que buscas? Acho que a procura da felicidade é a procura de um mundo sem dor. 

A mente

Há marcas que ficam. Há cicatrizes, e dores que vão e que voltam, como um bumerangue. 
É possível tentar esquecer, arrancar da memória é que não é tão fácil, e por isso, nunca passa do tentar. 
Quem sabe um dia as cicatrizes sarem e desapareçam da pele, e nunca mais sejam recordadas. 
Até lá, terei que me habituar com as suas intrusões em alturas inapropriadas, quando não há sequer uma altura apropriada, e tentar não enlouquecer. 
É difícil lidar com pensamentos automáticos, quando nem mesmo temos noção deles, quando os sentimentos afloram a pele, nos deixam quentes e trémulos, e não temos pistas do porquê. Mas às vezes há um insight, e boom, surgem todas as memórias dolorosas, todas as noites sem conseguir dormir, todos os dias com a mente vagando tentando solucionar as dúvidas impostas, e os gatilhos para a dor e a dúvida são agora muitos. Porque não posso apenas mexer na minha cabeça e consertar? 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Tempo

Pouso as mãos no colo. Luto há horas para distrair a minha mente, mas ainda não parei de contar o tempo passar. Estou esgotada com essa simples tarefa, o tempo é uma coisa curiosa quando se toma atenção nele. Na verdade ele não passa rápido, mas se ninguém o contasse eu diria que tinha estado parada desde que o comecei a contar.
Desisto agora de distrair a minha mente desta tarefa tão esgotante, e dedico-me apenas a ela. E questiono-me se é assim que quero passar os meus dias, a contar tempo, a ouvir o tic-tac do relógio que ele mesmo me deu.
Desisto de pensar por agora, e concentro-me nas minhas emoções. Sentir o tempo passar por mim deixa-me com um frio na barriga, deixa-me arrepiada e um pouco tremula. Não gosto do que sinto. Mas e daí tinha decido não pensar e só sentir. Mas quero fugir destas emoções.
Quero fugir do tempo, quero fugir desta minha nova tarefa, mas o tic tac está muito alto e não larga a minha cabeça.
Desisto(?)

domingo, 22 de junho de 2014

Arrancar tudo de mim

Quando perceberás que por ti arrancava tudo de mim?
Arrancava cada mancha que não gostasses, arrancava cada piada de que não risses, arrancava cada som que não quisesses ouvir, arrancava cada mecha de cabelo que não achasses bonita, arrancava cada defeitozinho meu que te irritasse, arrancava cada lágrima que não consigo impedir de cair e que tu chamas de injusta, arrancava cada suspiro de aborrecimento, arrancava cada grito de desespero e cansaço.
Estou cansada de sangrar sem parar nas minhas parcas tentativas de arrancar o que não é possível. Eu arrancava tudo o que me pedisses, mas apesar das feridas abertas, nada sai, apenas sangro sem término. Desculpa-me por não fazer mais por ti, mas enquanto tento arrancar tudo o que tenho esqueço-me do que um dia nos juntou ou do que sequer hoje ainda nos junta. E recordo me apenas que duas pessoas devem aceitar-se mas também lutar para que ambos sejam felizes. Em que momento as opiniões de um começaram a ser mais importantes que a de outro?
Por mim, e não por ti, arrancava o coração e entregava-to em mãos, e seguia sozinha sem virar costas só para não ter que sangrar continuamente. Desculpa se não consigo arrancar de mim o que não gostas, enquanto não arrancas nada de ti.
Por agora, não sei a fórmula para arrancar um coração e continuar a viver. Acho que terei que adiar.

sábado, 30 de novembro de 2013

O poder das palavras

Desenganam-se aqueles que vivem vidas fáceis. Não somos fáceis, somos complicados. Nada temos de simples. A verdade nem é a minha , nem é a tua, é uma mistura estranha das duas, onde há lados incompatíveis que temos que conciliar.
As palavras já não servem, quando não são ouvidas. São ignóbeis no seu estado confuso e inacessível, são uma mancha de preto incompreendida quando não são escutadas com a necessária atenção. As palavras ajudam a lavar a alma junto com as lágrimas salgadas que queimam a pele ao passar. Às vezes não passam a garganta, porque sabemos que nunca chegarão aos ouvidos de ninguém. Aí temos que aumentar a quantidade de lágrimas, que acaba por nunca cessar.
Quando não temos ninguém que nos oiça e nos ajude a limpar o sujo e o sangue derramado dentro de nós, temos que falar connosco mesmos, mas não há forma de limpar sozinho; a confusão faz-nos falar sobre tudo o que nos deixou naquele estado desfeito, na bola de trapos em que nos enrolamos, e que nos segue em plenos sonhos, que hoje em dia não são mais que pesadelos. Aumentamos o fosso entre nós e os outros. Estamos sós, nessa insignificância, nessa incompreensão, na solidão a que nos habituámos a chamar de casa.
Queríamos palavras quentes e aconchegantes, como uma manta no Inverno; queríamos um abraço de frases, um beijo de palavras, queríamos ternura para combater os pensamentos destruidores dentro de nós. Queríamos algo mais quando nos dão silêncio em resposta às nossas lágrimas sentidas e cheias de mágoa.

Sinto-me só no silêncio, e as vozes na minha cabeça gritam que sou
 "NINGUÉM!"
Tenho algo quebrado dentro de mim, e acho que não há arranjo possível.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Opções

É difícil dedicar toda a nossa vida a alguém, sem garantias que um dia não terá tudo sido em vão.
Um dia deixa de ter 24 horas, e passa a ter metade. Passo horas viajando entre prioridades e o sono é sempre o ultimo delas todas. Gostava que as semanas aumentassem de tamanho, e a minha independência crescesse exponencialmente. Penso a minha vida como um rio de leito largo que se vai estreitando.
Um dia, tudo terá passado, o tempo da alegria, das festas, da amizade e do amor. Um dia, virarei a cara ao presente para ver o passado e ficarei desanimada com as oportunidades que deixei escapar. É uma vida ocupada, e tão pequena.
Passo tantos tempos mortos, que gostava de poder eliminar, mas que sou obrigada a tolerar.
Tive que ceder, tive que colocar em suspenso pessoas na minha vida. Tive que criar um intervalo sem fim especifico. Tive que adiar parte de mim para que outra possa crescer saudável.
É difícil viver com grades nas janelas.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Quebraste(-me)

Embrulho-me numa manta velha enquanto oiço o vento abanar a janela, tentando entrar...
Gostava de a abrir e de lhe fazer frente, mas provavelmente seria levada para longe, arrastada, e, de olhos fechados, deixar-me levar, desistir de tentar resistir a uma força poderosa como ele.
É isso que acontece quando tentamos resistir a uma força maior que nós. Somos atropelados por ela, somos levados com ela para o meio da tempestade. Não importa resistir, nunca será possível aguentar muito tempo. É preciso deixa-la passar por nós, arrasar-nos, despojar-nos do calor do corpo, deixar a nossa pele branca, os olhos rasgados com lágrimas dolorosas, e o corpo pisado e magoado. É preciso deixar uma ferida abrir e o nosso sangue criar uma poça aos nossos pés.
Custa muitas lágrimas quando uma rajada mais forte passa pelo meio de nós e nos quebra algo. A dor permanecerá na reconstrução, e não se sabe o tempo que durará a curar.

domingo, 13 de outubro de 2013

Inverno

Olha de frente. Vê como a luz lhe bate e lhe esconde as imperfeições. Parece lisa a sua pele. Parece ter um brilho próprio. Parece macia, sedosa, como pele de bebé. Parece direita, parece certa, é a perfeição. 
Olha-lhe a sombra. Vê como é torta, rugosa, cheia de espinhos. Não é esbelta, nem bela.
É isso mesmo, uma sombra. Ela é a sombra, que se esconde no escuro. Ela é real na escuridão. Ela é negra de alma, é feia, é triste, é só. Na verdade ela é o nada, que se estende em pleno oceano para se afogar, que se deixa engolir pelas noites sem estrelas e sem luar. É ela que espera a morte chegar no silêncio. A morte é a sua amante mais querida.
Ela é o oposto dos heróis. O sue inimigo. Ela odeia os heróis, seres imundos de boas vontades, seres repugnantes que querem salvar o mundo. Nem todos podem ser salvos. Ninguém a salvou de si própria.
É bom ser amiga da noite e do frio. Ela caminha no silêncio e enfrenta o vento gélido que lhe acaricia a pele. Ela não teme a dor que lhe trespassa a alma, porque a alma é um buraco negro que lhe vai sugando a vida. Na sua mente o vazio é ensurdecedor.
Mas ela continua a caminhar de olhos baços, sem destino. É assim que ela gosta de estar, em movimento, sem nunca chegar a nenhum lugar.
Ela mistura-se com a noite e é tão gélida como a neve. Nela só existe Inverno. O tempo pára e o mundo parece abandonado. Ela respira lentamente, é um esforço que já não compensa.
Se tocasse o Sol certamente o gelaria.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

um fim anterior

Como seria o mundo em que eu não existisse?
Quem ocuparia esta casa? Estaria ela vazia?
Onde estariam as pessoas que conheço? Como seria a vida delas afectada pela minha ausência? Que caminhos seguiriam? Seriam mais felizes? Certamente algumas teriam essa hipótese, que não tiveram.
Seria este um mundo melhor sem mim? Será que decidiu o destino rir-se permitindo a minha existência?

Viver
Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada? 
E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?  
Isso, ou menos que isso
uma noção de porta,
o projecto de abri-la
sem haver outro lado?  
O projecto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa? 
Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança? 
Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'  

sábado, 5 de outubro de 2013

Charlatães do Amor

Hoje em dia amar é pouco mais que vender promessas baratas.
São tão comuns. Tão disseminadas nesta imensidão de rostos anónimos. Cada um já terá ouvido dessas promessas de um amor (in)capaz.
Acredito que só quem tenha sofrido nas mãos desse charlatanismo saiba do que falo. Os charlatães? Não admitem a existência deste "amor" tão falso . Escondem-se atrás do "amor é passageiro". Mas não explicam como amam hoje esta e amanhã outra pessoa, como, sem ainda bem a conhecerem, já prometem "para sempre's".
Admito a existência de pessoas que precisam de algumas horas para saberem o que querem, para saber o que sentem, mas isso não acontece três vezes por semana. Esses são os que nunca sabem o que querem, mas gostam de se fingir conhecedores dos sentimentos. E o que fazem? Quebram corações com simples "Não dá mais",  "Afinal não era o que eu queria", "O problema não és tu, sou eu", "Conheci outra pessoa". Como aceitar isto no fim de mil promessas, que nunca foram nem serão concretizadas? Quem repara o sentimento de vazio, de engano, de traição, que permanece numa pessoa enganada? Não permanece apenas o tempo que tiveram juntos, não desaparece ao fim dumas horas, duma semana ou duas. Fica a marcar território. Porque doeu. Dói acreditar em mentiras.
Os charlatães precisam de sofrer do mesmo mal, precisam de acreditar em mentiras que eles próprios contam, precisam que doa. Talvez aí, sejam como eu, e não voltem a fazer promessas vazias.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Porquê a Solidão?

Sempre quis a minha independência. Sempre achei que é sozinha que hei de viver. contar comigo, só comigo. Lidar com as minhas metas, os meus alcances, as minhas perdas. Sozinha.
É triste ser só. Não me impeço de chorar perante este meu ideal de vida, que nada tem de ideal. Mas tento  controlar-me pensando que é o melhor para mim. Nova crise de choro em seguida.
É difícil ser feliz nestes termos, e é difícil ser feliz com este "ideal".
É como questionar toda a felicidade que nos é provocada por outros. É procurar por sinais de que essa felicidade está a terminar.
É antecipar a solidão. É o medo da solidão que eu tenho. Toda a vida vivi por mim esperando um futuro melhor. Mas quando o tenho ele  treme-me nas mãos, é frágil, vai cair e partir-se.
Se volto a ficar sozinha que será de mim?
Será que realmente quero viver a minha vida inteira fugindo do medo de perder alguém? Viver só com medo do processo de solidão?
Atrevo-me a questionar, devo eu fingir-me de morta pelo medo de morrer?
Levo um tempo a perceber-me, a saber de mim.
Mas enquanto discorro sobre os meus pensamentos descubro-me e entendo melhor os meus medos.
Muitos dias posso afirmar não gostar  de quem sou. Acho que me deixo levar demasiado pelos meus medos. Acho que me deixo guiar por eles. Ser atropelada por eles, esmagada, dominada, paralisada.
Quando estou confiante basta uma coisa para deitar tudo por terra. É difícil ser assim. E a maior parte das vezes atrás dum "Está tudo bem" está uma luta no meu interior pelo poder da minha mente.
Acho que quando nos magoam passamos a tomar isso por certo a vida inteira. Falo por mim, que é assim que me sinto. Parece que existe sempre alguém melhor a querer ocupar o nosso lugar e a ter total desconsideração por outro ser humano. eu não sou assim. Se rá que deveria ser assim? Será que deveria seguir o modelo dessas pessoas que quase odeio? Que chego a odiar algumas vezes?
E volto à solidão.
Porque me sinto tão só? Tão triste? Tão abandonada? É defeito meu este?
Porquê tanto medo? De onde vem este medo de ser esquecida?

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Amnesia

Não consigo abstrair-me do que sei.
É como um estilhaço escondido no coração, uma bala perdida, arremessada ao acaso e esquecida.
Dói.
Agora apetece-me chorar. Não sei se da garganta dorida, dos olhos pesados, se do meu coração fracassado.
Quero apagar o que sei. Esquecer.
Quero que não doa em mim, nem em sonhos, como nos pesadelos que me têm perseguido.
Seria tão mais fácil adormecer agora num sono sem sonhos e dormir. Só dormir, até haver certezas neste mundo.

sábado, 28 de setembro de 2013

Reflectida

Ela dança louca
Sobre espelhos partidos.
A sua imagem é reflectida 
Em fragmentos,
Que imagem fiel de si mesma!
Parece indiferente aos seus pés
descalços, manchados de sangue.
Dança com um parceiro invisível
E finge um sorriso com os lábios
Que não chega aos olhos
Fechados. Que imaginará ela
para calar a dor?

Os pés choram
E a dor é aguda.
Milhões de cortes, feridas,
Os pedaços penetram bem a pele
Tenra, jovem, A ternura.
Mas está tudo bem.
É preciso. 

O cubo

Carrego um cubo opaco dentro do peito.
Nele escondo as minhas feridas, de olhares indiscretos, de aguçados ouvidos, de atentas e perspicazes pessoas. É um cubo pesado, que torna lentos os meus movimentos, que me faz andar atrás, que me faz parar no caminho para recuperar o fôlego. Dificulta-me a respiração, e torna o ar impuro para o meu corpo. Este meu corpo tudo quer rejeitar, e o estômago encolhe-se no vazio. Ele pede para ficar sozinho no desespero.
O cubo carrega uma vasta onda de escuridão e eu abraço-me para me proteger do ar gelado que de lá sai. Mas como nos protegermos de nós próprios? do nosso interior?
Porque quero carregar sozinha este peso?

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Discurso directo em Amor e Perda

O frio voltou. Não me coloco à janela, que fechei por completo. Perdi interesse no céu estrelado. Perdi interesse no cheiro da noite e no único som vindo dos animais no mais completo silêncio. 
O coração já sofreu tantos remendos, no seu passado, que hoje racha ao menor sinal de agressão.
Hoje, ele desenterra o passado, e com o passado os mesmos medos, a mesma ansiedade, e a esperança? vem tão fraca como fraca ficou outrora, tão baça, tão gasta, tão maltratada.
Como voltar a ensinar um coração a acreditar? Como o fazer depois de ele ter acreditado em mentiras? Depois de ele ter aprendido que o mundo é um lugar desleal? Como fazê-lo ter esperança num mundo finito? Tudo termina um dia.
A frase que me deita ao chão de pedra, duro e frio, gelado na verdade.
O que fazer num mundo em que tudo termina?
O que serei amanhã? Estarei viva amanhã? O que é o amanhã?
É inevitável o choro. Talvez hoje não chore, talvez chore um pouco, só para lavar a alma. Mas um dia, o meu coração quebrará.
O típico sofrimento humano: estar a sofrer quando as coisas estão mal e sofrer com medo que corram mal, quando tudo está bem. Sou uma humana típica, eu suponho.
Tenho um medo que me dilacera a alma.
Alguma vez amaram alguém com todo o vosso coração? Falo a sério. Sentir-se cheio, completo, sentir algo brotar de dentro, seja do coração ou de qualquer outro órgão? Sentir que mais ninguém se chega tão próximo, que mais ninguém te conhece assim, com quem precisas de partilhar tudo porque ele é uma extensão de ti?
Nunca soube o que é o amor, nem me quero arriscar a dizer que sei, mas não estarei próxima quando sinto tudo isto? Quando as saudades apertam após poucas horas de ausência?
No início, não sabendo o que significava o amor, temi tratar-se de "paixão correspondida", de atracção física e sexual. Temi que não durasse mais que uns dias, depois mais que umas semanas... não pensei chegar até onde chegámos. Mas hoje, é tarde para protecções. Hoje estou aqui de corpo, alma, coração, e tudo aquilo que possua, para dar.
Não sou hipócrita dizendo que nada quero em troca. Quero. Eu quero o mesmo amor de volta. Quero não ser a única que prefere dormir abraçada, num dia de extremo calor, a dormir sozinha; Quero não ser a única a procurar a mão para podermos estar sempre unidos. Quero não ser a única a deixar tudo o resto só para poder abraça-lo mais uma vez. Não quero ser a única a dar tudo. Não quero acabar sozinha, num banho de lágrimas, sem nada com que me consolar.
Nunca vi ou senti nada assim. Será que toda a gente se sente assim um dia? Será que toda a gente encontra alguém de quem quer tomar conta, cuidar com todo o carinho, alguém para mimar, alguém para brincar, alguém com quem chorar, mas que nunca nos faça chorar, alguém em quem nos apoiarmos, alguém a quem se entregar totalmente?
Basta um sorriso. Nunca vi ninguém tão bonito. Nunca vi alguém tão brilhante, tão resplandecente. Tão bom coração. Tão meigo, tão carinhoso, tão atento às necessidades dos outros.
Nunca me senti tão bem por ser sincera, por poder mostrar o meu verdadeiro eu, sem me sentir culpada. Nem nunca me senti tão bem por não ser repreendida e sim compreendida. Acho que tinha um medo  aprendido sobre ser "eu", sem omissões, poder mostrar os meus medos, as minhas tristezas. é bom uma vez na vida não ser errado estar triste, e alguém mover o mundo para me fazer feliz.
E é assim, em discurso directo, que ao fim de três páginas as lágrimas me vêm aos olhos por me lembrar que sou uma sortuda, dure o tempo que durar. Aprendi a amar. Todo este tempo tenho tido o que de melhor poderia ter encontrado. E é tão difícil pensar que o poderei perder.

Medo

É como estar doente, duma doença sem nome. É crónica e piora.
Destrói aquilo em que acreditamos, mesmo quando o nosso coração quer acreditar.
A nossa mente começa a construir padrões, e quando surge algo que se parece encaixar... surge o alerta insistente que não nos deixa dormir. É a dúvida que se implanta, mesmo nos locais menos apropriados. 
E quando os padrões não são iguais, nós torna-mo-los semelhantes, criamos na nossa imaginação como se desenhássemos os contornos da realidade. A partir desse momento só existem aspectos negativos, muitos deles inventados, mas que são para nós tão reais e verdadeiros.
É uma doença que nos enjoa e faz vomitar. É uma doença que nos tira a fome, que nos tira as forças, que nos tira as vontades de tudo e de nada.
É como morrer lentamente sobre nosso próprio controlo. É como matar a esperança ao mesmo tempo que a queríamos ter salvo.
É querermos ser o nosso fim, só para morrermos preparados.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Nada

Apetece-me arrancar todas as ínfimas partes de mim.
Desmembrar-me.
Sangrar-me.
Fazer dos meus ossos pó.
Espalha-los por diversos lugares, tão distantes quanto inexistentes. Infinitos talvez.

Ser eu, sem mim mesma.
Ser tudo quando não sou nada.
Ser nada, no fim do dia.

domingo, 15 de setembro de 2013

Auto-punição

Ela odiava o mundo. 
Ela odiava não escolher , e odiava ter que escolher. 
Ela partia os vidros arremessando-os contra as paredes cinzentas e enrugadas. Ela gritava numa sala grande e vazia, e ouvia o seu eco em retorno. Quando não gritava ficava só silêncio. Ela gostava do silêncio ao mesmo tempo que o odiava. Ela sentia vontade de se partir aos pedaços, de ver o seu interior, de se poder arranjar, sentia algo estragado dentro de si. 
Ela corria fugindo de tudo. Quando aparecia uma brecha de sol ela corria para a sombra.
Quando caia uma gota de chuva ela sentava-se no chão sujo e deixava-se enregelar até não sentir mais o corpo. Ela auto-punia-se, sem saber porquê. 
E sentia-se tão triste, por não conseguir ser doutra forma.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A morte do rei.

E a única opção é matar.
Atirar esperando a bala encontrar o seu caminho.
Dar um grito ao mundo, avisa-los, porque o rei vai cair.
Haverá sangue numa lâmina,
Estilhaços pelo chão sangrento,
E um conjuntos de buracos, balas alojadas por todo o corpo
Deixando o sangue fluir,
Até secar, até ser um cadáver,
Até ser comida para bichos e insectos,
esses nojentos,
que do nojo se alimentam.
Do morto.
Haverá rostos carregados,
que passam na rua e não reparam,

não reparam na poça de sangue viscoso,
como se ela fizesse parte das pedras mármore 
já sujas do tempo.
Ninguém acredita nesse fim.
Os finais felizes não existem.