sábado, 30 de novembro de 2013

O poder das palavras

Desenganam-se aqueles que vivem vidas fáceis. Não somos fáceis, somos complicados. Nada temos de simples. A verdade nem é a minha , nem é a tua, é uma mistura estranha das duas, onde há lados incompatíveis que temos que conciliar.
As palavras já não servem, quando não são ouvidas. São ignóbeis no seu estado confuso e inacessível, são uma mancha de preto incompreendida quando não são escutadas com a necessária atenção. As palavras ajudam a lavar a alma junto com as lágrimas salgadas que queimam a pele ao passar. Às vezes não passam a garganta, porque sabemos que nunca chegarão aos ouvidos de ninguém. Aí temos que aumentar a quantidade de lágrimas, que acaba por nunca cessar.
Quando não temos ninguém que nos oiça e nos ajude a limpar o sujo e o sangue derramado dentro de nós, temos que falar connosco mesmos, mas não há forma de limpar sozinho; a confusão faz-nos falar sobre tudo o que nos deixou naquele estado desfeito, na bola de trapos em que nos enrolamos, e que nos segue em plenos sonhos, que hoje em dia não são mais que pesadelos. Aumentamos o fosso entre nós e os outros. Estamos sós, nessa insignificância, nessa incompreensão, na solidão a que nos habituámos a chamar de casa.
Queríamos palavras quentes e aconchegantes, como uma manta no Inverno; queríamos um abraço de frases, um beijo de palavras, queríamos ternura para combater os pensamentos destruidores dentro de nós. Queríamos algo mais quando nos dão silêncio em resposta às nossas lágrimas sentidas e cheias de mágoa.

Sinto-me só no silêncio, e as vozes na minha cabeça gritam que sou
 "NINGUÉM!"
Tenho algo quebrado dentro de mim, e acho que não há arranjo possível.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Junta-te a mim nesta louca caminhada

Encontrar o amor verdadeiro faz de nós pessoas com sorte, que encontraram a felicidade, e pessoas corajosas que souberam também agarra-la.
O amor verdadeiro é difícil de achar porque é preciso ceder perante adversidades, é preciso esquecer-nos um pouco de quem somos individualmente e construir uma identidade colectiva. 
Não é deixar de sermos quem somos. 
É melhorar-nos a nós mesmos, é podemos ser duas pessoas, com o dobro dos defeitos, mas também com o dobro das qualidades. Potencializamos o melhor de nós dois. 
Sou eu para ti e tu para mim. Somos dois corações que não precisam mais sentir-se sozinhos, e que podem enfrentar o mundo de mãos dadas .

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Tardes de Outono

É bom passear contigo nas tardes de Outono.
O rio brilha com as luzes da cidade à medida que o sol vai descendo no horizonte. Os meus olhos também brilham reflectidos nos teus. Por momentos parece que o mundo decidiu deixar-nos sós.
O mesmo rio que nos juntou vê-nos agora mais cúmplices que nunca, e sabe que um dia juntou as pessoas certas. Este rio que leva as lágrimas de inúmeros corações partidos também as minhas um dia levou, e não me deixou mal trazendo-me um coração novo e verdadeiro para qual me dedicar.
Não imaginava poderem haver duas pessoas tão perfeitas uma para a outra como nós somos.
O frio parece desaparecer quando aqueço a minha mão gelada na tua e me aconchego nos teus braços. A rua ganha cor e movimento, a música preenche o vazio que o frio deixa, e juntos sentimo-nos poderosos, não fosse o amor o maior poder do mundo.
A teu lado não existe vazio, não existe solidão, não existe tristeza. A teu lado tudo parece bom, a teu lado gosto de mim, a teu lado gosto do sol e gosto da chuva, do calor e do frio, a teu lado só sorrio. E quando choro, é o amor que não cabe em mim e me sai pelos olhos em forma de lágrimas.
És a melhor pessoa que entrou na minha vida e não te quero deixar sair.

Opções

É difícil dedicar toda a nossa vida a alguém, sem garantias que um dia não terá tudo sido em vão.
Um dia deixa de ter 24 horas, e passa a ter metade. Passo horas viajando entre prioridades e o sono é sempre o ultimo delas todas. Gostava que as semanas aumentassem de tamanho, e a minha independência crescesse exponencialmente. Penso a minha vida como um rio de leito largo que se vai estreitando.
Um dia, tudo terá passado, o tempo da alegria, das festas, da amizade e do amor. Um dia, virarei a cara ao presente para ver o passado e ficarei desanimada com as oportunidades que deixei escapar. É uma vida ocupada, e tão pequena.
Passo tantos tempos mortos, que gostava de poder eliminar, mas que sou obrigada a tolerar.
Tive que ceder, tive que colocar em suspenso pessoas na minha vida. Tive que criar um intervalo sem fim especifico. Tive que adiar parte de mim para que outra possa crescer saudável.
É difícil viver com grades nas janelas.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Chocolate em jeito de ser

O chocolate deveria ser a cura de todos os males. O chocolate cheira a conforto, e é tão doce como a companhia mais meiga. Tem um sabor macio a paz, é um bocado de paraíso. 
O chocolate preenche cada vazio dentro de nós, cola um coração partido, faz sorrir a pessoa mais triste. 
Só tem alguns defeitos, deveria ser comido sem nunca enjoar, deveria não engordar e deveria definitivamente nunca acabar. Deveria ficar connosco quanto tempo nós quiséssemos, e nunca nos desiludir.
Poderia ser o meu melhor amigo.

domingo, 10 de novembro de 2013

Caminhar à beira mar

Permite-me dar-te a mão enquanto caminhamos lado a lado. Dás-me um apoio, para ti desconhecido. 
O calor da tua mão enquanto seguimos o mesmo caminho permite-me ter a certeza que permaneces a meu lado e de que és real.
Penso-te um sonho muitas vezes. Mas se fores, quero sonhar-te o resto da vida. Não sabia que a realidade podia ter um sabor tão doce e tão intenso. A minha sabe a chocolate com morangos e cheira como o mar numa manhã de Verão. Caminhar contigo é como caminhar na praia, descalça sentir a areia húmida nos pés, e os beijos das ondas calmas de quando em vez.
É assim como uma paz sem explicação, muito amor, e um só coração para nós dois.
É como uma vida sem inicio nem fim. Só um interminável caminho de felicidade.

És a minha felicidade


O mundo é um local misterioso. As coisas acontecem à velocidade da luz, num segundo mil pensamentos nos passam na cabeça. Num segundo podemos interessar-nos por alguém. Numa semana podemos apaixonar-nos. Em alguns meses podemos descobrir o que é o amor. Em pouco tempo podemos esquecer-nos que um dia fomos tristes. Podemos transbordar de felicidade e querer partilha-la com todo o mundo. Esquecemos o passado e não conseguimos imaginar um futuro diferente. Nem queremos. Queremos que o tempo pare. Queremos uma felicidade que dure, que seja eterna. Queremos conhecer o amor como sendo isto mesmo que vivemos. Queremos manter a crença que só existe um amor. Só existe uma pessoa que amaremos para sempre. Queremos ter uma certeza neste mundo tão incerto. Queremos viver dia-a-dia nessa certeza, queremos poder dizer e sentir "Sou feliz", "Sou feliz contigo, preenches o meu coração, e os teus braços são o local mais seguro do mundo".
Eu sou tão feliz.

sábado, 9 de novembro de 2013

6 meses e um Amor

Apesar de saber que não tenho que o fazer é me impossível não te agradecer pelos magníficos 6 meses que me proporcionaste. Foram até hoje 6 meses na melhor companhia do mundo, a tua, e que me levaram a esquecer um passado de tristezas e a confiar no futuro. Deixei um passado de solidão e tristeza e embarquei numa aventura indescritível só comparada aos maiores romances escritos.  Talvez um dia escreva o nosso romance, mesmo que este não tenha um final feliz. Seria um romance sobre amor, respeito, comunicação, companheirismo, amizade. Só não saberia que nome lhe dar, quando o meu coração não sabe outro nome além do teu.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Estar contigo é estar em casa...

Acordar sem ti a meu lado é como ser uma criança a quem tiraram um doce.
Estar contigo é estar em casa, seja em que sitio for, desde que me continues a sorrir. Vivo no teu sorriso - já nada sou sem essa tua vivacidade, nem nunca seria alguém como sou hoje. Graças a ti, aprendi novas palavras que não têm definição e novos gestos que não têm nomes.

A minha cabeça chama por ti;
O meu coração não bate por mais ninguém, ele por mim nunca bateu...

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Os sonhos e o mundo irreal

As palavras já escapam, já se misturam no meio dos sentimentos.
Sinto repetir-me, no fluxo constante de amor, paixão, excitação, medo e ciúme. Quase me perco em mim mesma, sentindo-me em caminhos desconhecidos, que percorro pela primeira vez.
O medo vem daí também. Reconheço-me pessoa com novas metas, assustadoras e delicadas.
Permitir-me acreditar em coisas que nunca acreditei é quebrar barreiras que construí muito antes de ser quem sou hoje. Proteger-me faz parte do meu âmago. automaticamente levantei barreiras, construí muros, tornei-me racional e imparcial. Tornei-me a justiceira da razão em público, e, só em privado, comigo mesma, me permitia sonhar com o que considerava impossível. Hoje já não me deito na cama horas a sonhar acordada, hoje vivo o sonho que um dia não imaginei porque nunca quis chegar tão longe.
Quando lidamos com o sofrimento todos os dias aprendemos a queimar o coração, a deixar que o sangue estagne e nos percamos no tempo, sem pertencer ao ontem, ao hoje ou ao amanhã. Aprendemos a esperar facadas nas costas, murmúrios escondidos que nos difamam, chapadas brutais que nos cegam os sentidos, compreendemos o mundo como um local sujo, amargurado, desprovido de cores vivas.
No momento que o coração começa a bater e o mundo a ganhar cor, sentimos que foge de nós a realidade, que entramos num mundo alternativo e inexistente. Sentimos que será fugaz como os sonhos que um dia não conseguimos agarrar por mais que uma noite.

domingo, 27 de outubro de 2013

Mimos-Extra quando estás doente

27.Outubro.2013
  • Amo-te perdidamente
    É difícil não admirar a pessoa que és. Não vou dizer que não tens os teus defeitos,(...) Mas não é só de qualidades que as pessoas perfeitas são feitas. Comecei por gostar aos poucos de ti, conhecendo só as tuas qualidades. Pensei que não duraríamos muito tempo, sou sincera, por me pareceres alguém independente que não se queria apegar a ninguém. pensei que de ti não veria amostras de romantismo e carinho, mas comecei de inicio logo por aceitar "defeitos" que não tinhas. Surpreendeste-me positivamente (...), como posso agradecer-te por tanto que fizeste?Com o passar do tempo fui me sentindo cada vez mais importante para ti. E fui também me sentindo cada vez mais segura e apoiada. És um amigo que todos desejariam ter. (...) a verdade é que és a primeira pessoa em que vejo o esforço real de tentar compreender o meu lado e os meus sentimentos,de aceita-los, de perceber que aquilo que sinto não é a verdade absoluta, é apenas o que sinto, seja verdade ou não, e de, com tanta paciência, me repetires vezes sem conta que os meus medos são infundados, que não razoes para sentir o que sinto em algumas ocasiões. é por isso também que desvalorizo tanto os momentos em que fico triste contigo - esses momentos são uma parte tão insignificante destes meses que passámos juntos, destes meses em que fizeste tanto por mim, em que me fizeste rir, me limpaste as lágrimas, me abraçaste, me aconchegaste, me fizeste tão feliz! Aquilo que mais desejo é fazer-te tão feliz como nunca alguma vez imaginaste ser possível. Quero que sintas que tens uma pessoa a teu lado para tudo o que precisares, que não haverá uma queda que dês que eu não esteja a teu lado para te levantar, e cuidar das feridas que faças. Quero que sintas que não passarás um dia sozinho, mesmo que eu não esteja à tua beira. Quero que saibas que a minha amizade para ti é eterna.

    26.Outubro.2013"Para sempre" é das expressões mais assustadoras que se pode pronunciar. Não temos poder sobre o futuro, nem adivinhamos o que nos vai acontecer. Por isso, poderás não me ouvir dizer que quero ficar contigo para sempre. Ouviste-me dizer-te que gostaria de te amar para sempre, que nunca ninguém aparecesse e me roubasse o coração, como tu fizeste. Fui sincera. Por mim, juraria a pés juntos que ficaria contigo para sempre se mo permitisses, mas, dir-te-ei apenas que nunca fui tão feliz como sou contigo, e que quero ser feliz assim para sempre.


    25.Outubro.2013
    Como és lindo e eu amo-te mais que tudo, vou aqui dizer-te que nunca fui tão feliz como desde que te conheço. (...) obrigada por da tua maneira compreensiva me fazeres crescer. Contigo sou uma pessoa melhor.
    Vou retribuir todo esse carinho fazendo por ti tudo aquilo que esteja ao meu alcance .
    Obrigada.
    Amo-te sinceramente.



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Coragem

Muitas vezes sou frágil e quebro. Quebro nas lágrimas que choro, nas náuseas que me tiram a fome, no aperto que me fecha a garganta e me custa respirar. Sou frágil nos momentos de pânico que me fazem querer gritar, sou frágil nos momentos de doçura que me fazem silenciar. 
Ainda sonho com a felicidade e ainda me acredito longe de a alcançar. Para mim alcançar a felicidade não é ter um vislumbre dela a cada virar da esquina enquanto corro para a apanhar; é sim toca-la, acaricia-la, é deixar o medo ir embora porque ganhei nova companhia.
Mas compenso essa fraqueza quando enfrento as gotas grossas da chuva e as deixo lavar-me a cara e encharcar-me até gelarem os ossos.
Sou forte quando  enfrento o silêncio e o tento apreciar. Sou forte também quando calo a dor que fica presa na garganta, embora se espalhe pelo meu corpo e me magoe. Sou forte quando enfrento o futuro, sem nunca desistir de mim. Sou forte quando aceito o passado, e aprendo com ele. Sou forte quando admito os meus erros e peço perdão. Sou forte quando perdoo quem me magoou mais que um dia imaginei ser possível. Sou forte quando ignoro defeitos e valorizo qualidades. Sou forte quando confio cegamente. 
Sou forte quando amo alguém mais que a mim própria.

Quebraste(-me)

Embrulho-me numa manta velha enquanto oiço o vento abanar a janela, tentando entrar...
Gostava de a abrir e de lhe fazer frente, mas provavelmente seria levada para longe, arrastada, e, de olhos fechados, deixar-me levar, desistir de tentar resistir a uma força poderosa como ele.
É isso que acontece quando tentamos resistir a uma força maior que nós. Somos atropelados por ela, somos levados com ela para o meio da tempestade. Não importa resistir, nunca será possível aguentar muito tempo. É preciso deixa-la passar por nós, arrasar-nos, despojar-nos do calor do corpo, deixar a nossa pele branca, os olhos rasgados com lágrimas dolorosas, e o corpo pisado e magoado. É preciso deixar uma ferida abrir e o nosso sangue criar uma poça aos nossos pés.
Custa muitas lágrimas quando uma rajada mais forte passa pelo meio de nós e nos quebra algo. A dor permanecerá na reconstrução, e não se sabe o tempo que durará a curar.

Declaração x1000

Ver a tua face iluminada na escuridão emociona-me, pois posso afirmar seres a minha luz.
Eu acredito nas declarações de amor, apesar de saber que nunca declaramos tudo, pois as palavras não alcançam a profundidade que o amor verdadeiro alcança.
Eu faço muitas declarações de amor, até num simples toque meu podes sentir o meu amor, ou ver nos meus olhos brilhantes quando te olham, e te vêem como um todo, como és, com todas as qualidades e com todos os teus defeitos e continuam a achar que és perfeito.
Cedo ou tarde sei que corres para mim e me alcanças para eu nunca ficar sozinha. Sei que não estou sozinha, sei que a tua presença é constante na minha vida, no meu pensamento, no meu coração. Fazes parte de mim, o meu coração tem o teu nome e a minha alma um pouco de ti.
Aconteça o que acontecer, seja a minha vida um inferno de dor, um fogo que me consuma, me enfraqueça, me sugue a vida, mas quero amar-te para sempre, quero eternamente pertencer-te. Eu sei que o que sinto é verdadeiro. Espero já ter conseguido transmitir-te isso.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Corvos

São negros como o carvão. De olhos aguçados procura as próximas presas. Sempre atentos ao menor movimento, captando todo o seu redor. O ambiente está escurecido e a luz do dia mal se vê. Talvez uma tempestade se encaminhe.
O único som que se ouve são os seus pios. As árvores, essas, estão quietas, como esperando um acontecimento para acordarem.
O ar está estranhamente quente, como o leito de um enfermo, como uma febre que não passa.
A profecia talvez esteja certa e o mundo esteja prestes a acabar. Que fatalidade provocará tal destino?
Não passam mais de duas horas até que as primeiras  respirações comecem a falhar, os corações comecem a parar, os corpos comecem a cair. Os baques são surdos e as vozes perdem-se na garganta antes do grito nascer. Não há quem as levante agora da queda infinita que começaram. Morrer não é o fim. Cai-se mais, através do tempo e do espaço, uma dor que não termina, que não acalma, que não se esgota.
Consome-se o fogo em si e renasce, recria-se, revive.
Os corvos voam em volta dos corpos apodrecidos e incompletos, picam-nos, comem-nos, devoram-nos.
O mundo é um amontoado de corpos em deterioração, decompostos como lixo, é o banquete dos corvos.

domingo, 13 de outubro de 2013

Uma rua singular

A rua está deserta.
A noite escurece a fachada das casas.
Os candeeiros há muito se fundiram e nunca ninguém os veio substituir. Se é esquecimento ou propositado não se sabe dizer. Talvez faça falta alguém que não cale a voz e insista na reparação. Mas as gentes desta rua não parecem importar-se.
Muitas casas estão vazias e parecem abandonadas. Umas sem telhados, outras sem janelas. Mas têm portas que se aguentaram na ruína e batem em noites de ventania, muitas vezes confundindo-se com trovões em noites de tempestade.
Quem passa perto desta rua diz ouvir sons que se parecem com gritos abafados ou distorcidos. É um som que arrepia a pele e aperta o coração. Espalhou-se o rumor de que eram casas assombradas.
Uma jovem percorre essa rua todos os dias, até à última casa. Percorre sempre essa rua sozinha, e já sabe de cor o caminho, de modo a saber como o percorrer na escuridão.
Não lhe custou a solidão, e agradeceu o silêncio que se faz a maior parte dos dias e das noites.
Vê também um beneficio na escuridão quando se senta à janela fazendo festas ao gato vadio que um dia adoptou depois deste lhe aparecer em casa e lhe roubar metade do almoço. O melhor momento do dia é quando bebe o seu café e conta as estrelas.

Inverno

Olha de frente. Vê como a luz lhe bate e lhe esconde as imperfeições. Parece lisa a sua pele. Parece ter um brilho próprio. Parece macia, sedosa, como pele de bebé. Parece direita, parece certa, é a perfeição. 
Olha-lhe a sombra. Vê como é torta, rugosa, cheia de espinhos. Não é esbelta, nem bela.
É isso mesmo, uma sombra. Ela é a sombra, que se esconde no escuro. Ela é real na escuridão. Ela é negra de alma, é feia, é triste, é só. Na verdade ela é o nada, que se estende em pleno oceano para se afogar, que se deixa engolir pelas noites sem estrelas e sem luar. É ela que espera a morte chegar no silêncio. A morte é a sua amante mais querida.
Ela é o oposto dos heróis. O sue inimigo. Ela odeia os heróis, seres imundos de boas vontades, seres repugnantes que querem salvar o mundo. Nem todos podem ser salvos. Ninguém a salvou de si própria.
É bom ser amiga da noite e do frio. Ela caminha no silêncio e enfrenta o vento gélido que lhe acaricia a pele. Ela não teme a dor que lhe trespassa a alma, porque a alma é um buraco negro que lhe vai sugando a vida. Na sua mente o vazio é ensurdecedor.
Mas ela continua a caminhar de olhos baços, sem destino. É assim que ela gosta de estar, em movimento, sem nunca chegar a nenhum lugar.
Ela mistura-se com a noite e é tão gélida como a neve. Nela só existe Inverno. O tempo pára e o mundo parece abandonado. Ela respira lentamente, é um esforço que já não compensa.
Se tocasse o Sol certamente o gelaria.

sábado, 12 de outubro de 2013

O único companheiro de viagem

Nunca pensei dizer isto sobre alguém, mas só te quero a ti.
Nenhuma vida é feliz quando percorres caminhos sozinho, sem alguém com quem partilhar  a beleza das paisagens, a aragem fresca num dia de calor, a vista das borboletas coloridas e esvoaçantes, o odor silvestre a pinheiros, a eucaliptos, a erva, a flores, que perfumes! Nenhum caminho é brilhante, precisamos de alguém a nosso lado que nos dê a mão durante as noites sem luar, que nos segure quando tropeçamos, que nos levante quando caímos, que nos ajude a escolher o caminho certo a seguir.
É a ti que quero acompanhar. Não quero mais ninguém responsável pela tua felicidade. Desculpa-me, mas não confio em mais ninguém para algo tão importante.
Quando ao teu lado não procuro o tesouro no fim do arco-íris porque já o encontrei. Para mim isso basta-me como razão suficiente para não pertencer a mais ninguém.
Talvez não seja justo para ti seres o meu único "objecto" de desejo, de afecto, de amor, mas mesmo que eu quisesse seria impossível alterar o que sinto.
Amar não tem nada a ver com padrões de beleza, nem de inteligência, nem de características apontadas num bloco de notas que precisam ser satisfeitas como pré-requisitos. Amar é descobrir aos poucos aquilo que gostamos e aquilo que procurávamos sem nunca saber. É uma aventura, um mistério. É voltar a ser uma criança sem preocupações. O coração é purificado quando se ama, torna-se inocente e livre de ódio, de mentiras, de omissões.
Amar é tornar-se livre do tempo! O tempo desfaz-se em nada quando o nosso pensamento segue a pessoa um dia inteiro. O tempo descontrola-se porque, quando um com o outro, o tempo demora a passar, dá para fazer tanta coisa, do mesmo modo que passa muito rápido e nada se fez.
Permite-me fazer-te o homem mais feliz do mundo, e eu prometo que o faço.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Acordar nos teus braços

Acordei a meio da noite e lá estavas tu a meu lado. Aconchegaste-me nos teus braços e continuaste a dormir serenamente. 
Foi como se nunca antes tivesse acordado sozinha; Olhei-te e tentei recordar a minha vida anterior a ti - uma tristeza indefinida, difusa, que tantas vezes me assaltou, nada mais.
Trazes-me calma, trazes-me paz. Não sei que truque utilizas, mas fazes-lo bem. é bom sentir que alguém se preocupa, que não ficamos sozinhos quando os dias correrem mal. Perguntei-te se me protegerias de tudo, e disseste que sim - vou acreditar em ti, porque sei que não me mentirias.
Nunca me largues a mão, leva-me pelos caminhos que percorreres. Sabe que sempre retribuirei o apoio que me dás. Também nunca estarás sozinho.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

um fim anterior

Como seria o mundo em que eu não existisse?
Quem ocuparia esta casa? Estaria ela vazia?
Onde estariam as pessoas que conheço? Como seria a vida delas afectada pela minha ausência? Que caminhos seguiriam? Seriam mais felizes? Certamente algumas teriam essa hipótese, que não tiveram.
Seria este um mundo melhor sem mim? Será que decidiu o destino rir-se permitindo a minha existência?

Viver
Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada? 
E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?  
Isso, ou menos que isso
uma noção de porta,
o projecto de abri-la
sem haver outro lado?  
O projecto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa? 
Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança? 
Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'