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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Jogos

Mordo o lábio enquanto te observo do outro lado da sala. Não fazes ideia que te observo, ou se quer que já cheguei. 
Não me aproximo, deixo-te notar a minha presença. 
O teu sorriso trai-te, quem sabe me traia a mim também, e chegas colocando o teu braço na minha cintura para me chegares mais a ti. 
Dás me um beijo na face, que mais logo acaba numa linha de fogo no meu pescoço. Aproximas o teu rosto do meu e coloco um dedo sobre os teus lábios para te travar. Tu morde-lo travesso, e não evito sorrir. Encostas-me às paredes nuas e vazias para não me deixares fugir, e os nossos olhos não descolam esperando quem faça o primeiro movimento. 
Como vai ser o jogo?

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Febre

Ela estava só. E há muito tempo assim estava. 
Mas sonhava. Sonhava tão alegre como em dor, por querer aquilo que não existia se não no seu pensamento. Fazia histórias entre fios e fios de imagens coloridas. De paixões arrebatadoras, encontros e desencontros intensos e de tirar o fôlego. E suspirava, enquanto lhe doía o coração, por querer demasiado. 
Lia romances e sonhava mais alto com o seu. Com um toque proibido, que a fazia morder os lábios para se castigar por querer algum bandido a morde-los e a deseja-los. Queria que lhe roubassem a sua essência sem pedir, que a puxassem e mal a deixassem respirar com o desejo. Que não a deixassem pensar entre os beijos fogosos, e a fizessem arder como se estivesse com febre.
Ela queria um amor que a consumisse.
E era assim consumida pelo próprio pensamento. E era infeliz.

sábado, 25 de abril de 2015

Beijos

Enrolava-me nos teus beijos, e no calor que os teus lábios traçavam no meu pescoço. Parava-te quando subias e procuravas os meus, mas não desistias de me tentar quebrar e parecias ficar mais persistente quando me ouvias escapar um pequeno gemido rebelde. 
Imaginava-me deixar-te conseguir esse feito de me roubar um beijo só uma vez, mas temia perder-me num caminho por onde não saberia seguir, nem voltar atrás.
Eu segurava as tuas mãos longe do meu corpo, e tu não as forçavas na minha direcção. Estarias tu fazendo o jogo da paciência, sentido a minha resistência a cair, pronto a qualquer oportunidade para revirar o jogo a teu favor.
O meu coração batia como louco, e os meus olhos fechavam-se ao compasso dos teus beijos, e eu via o teu sorriso maroto crescer entre as investidas. 
O fogo ardia dentro de nós, e o mundo parecia ter parado no suspense de quem iria ganhar a batalha.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Veritas

Ela caminhava pela sombra olhando o chão. Não via na verdade onde pisava, por ter a cabeça noutro lugar. Havia alguns anos que estava presa numa teia que começou como um jogo, ao qual ela nunca soube jogar. Melhorou ao longo dos anos, tornou-se mais cuidadosa nas peças jogadas, e aprendeu por fim a perder, enquanto fingia ganhar. 
Os caminhos já não eram os mesmos, mas a sensação sim, a cabeça pesada e o coração apertado.
Levantou os olhos quando chegou ao seu destino e encontrou-o sentado. Sorridente, como desde o primeiro dia que o vira, e já fazia tanto tempo. Talvez uma ou outra ruga tivesse surgido, mas ela não reparava em nenhuma diferença, era como voltar atrás no tempo. 
Ela não se sentou, e manteve a distância. Ele não a questionou, e o olhar mostrava compreensão. Reconstruíram juntos memórias já com falhas, eram músicas, toques, olhares encontrando-se na multidão, mágoas antigas. Ela despejou o coração pela boca, abriu o jogo bem na sua frente, porque quem perde um dia desiste de jogar, e foi se sentindo mais leve, como se o fingimento dos anos lhe pesassem nos ombros. 
Despediram-se com um abraço, de quem lamenta não poder começar tudo de novo sem os erros cometidos, mas separaram-se aí mais uma vez. 
Ela sabe que o jogo está na fase final, mas ainda procura um sinal nas entrelinhas de que ele se sinta tal como ela.
Queria fazer mais, mas era tarde para ela, e por fim, guardou só para si que a única coisa que sempre quisera era chegar ao seu coração. 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

A surpresa

Ela queria surpreender.
Mas os jantares às luz das velas estavam já há muito esgotados, e todos os dias eram especiais.
Bastava dar as mãos para um arrepio a percorrer, para a corrente eléctrica os ligar um ao outro.
O mundo parava a cada cruzar de olhares. O mundo parava a cada abraço. O mundo parava só para eles, porque eles eram um do outro, e o mundo não lhes podia tocar, nem o tempo, nem algo exterior a eles mesmos.
Nesse dia ela acordou com vontade de atiçar aquela paixão, que era sempre tanta, mas nunca demais. Tirou a caixa do armário, bem guardada, para uma ocasião como aquela. Retirou o conteúdo e sentou-se na beira da cama a admirar a sua aquisição. Duas peças de seda preta e renda vermelha, a lingerie mais sexy que ela conseguira encontrar, e um robe de seda preto para aumentar o conjunto. Contrastavam bem com a sua pele cor de neve, e com as suas faces rosadas, devido a um pouco de vergonha por ter comprado um conjunto tão inesperado. E foi assim que ela o esperou na cama nessa noite, ansiando pelo momento em que aquelas peças ficassem esquecidas pelo chão..
Oh! como eles eram loucos um pelo outro! E se devoravam, como quem se sacia só com o amor. E o mundo parava de girar, só para que eles se pudessem amar um pouco mais.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A velha caixa fechada com uma fita de seda

A rotina era sempre a mesma. Ela chegava a casa e pousava as preocupações em cima da mesa do hall de entrada. iria pega-las noutra altura.
Sentava-se à mesinha junto à janela com vista para o mar. Uma caneca de café quente e uns bolinhos de chocolate, receita secreta da mãe.
Olhava para o mar durante uns dez minutos enquanto saboreava o café e aquecia as mãos na chávena escaldante.
Era Inverno, e chovera durante duas semanas seguidas. O sol parecia um milagre nesse dia. Com sorte veria um por-do-sol sem uma nuvem que o arruinasse. Como ela gostava do por-do-sol na praia, de ver o sol desaparecer no horizonte tão lentamente, provar que o mundo não pára um único segundo.
Então chegava a hora de pegar nas folhas brancas por escrever e na sua caneta preferida, a primeira que lhe tinham oferecido.
Ela escreva cartas, sempre destinadas à mesma pessoa. Eram cartas de amor. Descrevia o sentimento que carregava no peito, que a fazia chorar lágrimas salgadas, como o mar que via bravo e zangado.
Mas ela não estava brava nem zangada. Uns dias estava triste e deixava as marcas das lágrimas na carta. Noutras estava feliz, e era a única ocasião em que pintava os lábios de vermelho e deixava a sua marca em jeito de despedida.
Nunca colocou destinatário, e guardava as cartas numa caixa velha de sapatos, fechada com uma fita de seda.
Eram para um amor antigo, uma daquelas paixões arrebatadoras. Que não deram certo.
Sabia o seu nome de cor, e a morada era fácil de arranjar, mas apesar de sempre que fechava uma nova carta dizer para si que um dia as enviaria, sabia que elas ficariam na caixa, ou seriam atiradas ao mar que a assistia a escrever.
Ela tivera outras paixões mais tarde.
Mas tinha agora trinta anos, e escrevia apenas para uma.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Quando a chuva cai

A chuva cai abundantemente.
São rios e rios, de águas um dia evaporadas.
A chuva cai abundantemente.
Os guarda-chuvas voam, e as pessoas protegem as cabeças como podem, com mãos, sacos, e casacos.
A chuva cai abundantemente, e Clara pára encharcada à porta dum prédio desconhecido.
Está um cheiro a tabaco no ar, e ela procura com os seus olhos pequenos perceber se se encontra acompanhada. Nota um movimento na sombra, e distingue a ponta de um cigarro aceso.
Um rapaz desloca-se ligeiramente para uma zona iluminada pelo candeeiro da rua. Olham-se durante segundos, constrangidos, e ela desvia o olhar, corando.
Ele estabelece diálogo. - que temporal.
O primeiro pensamento que ocorre à Clara é não responder, depois pensa em continuar pela chuva e tentar chegar a casa sem uma gripe. Desiste da ideia ao ver como chove cada vez mais, e responde sem olhar para o rapaz, - é mesmo, há muito que não via chover assim.
A respiração dele ouvia-se, profunda, e a voz era rouca, não se sabe se natural ou causada pelo frio.
- Estás bem?
Ela não tinha notado até então, mas estava a tremer do frio; afinal, tinha apanhado imensa chuva até desistir de correr e abrigar-se debaixo de um prédio. - Estou bem, só preciso de chegar a casa.
Tentou gracejar.
De repente vê o rapaz dar um passo na sua direcção e estender o braço para ela. Toca-lhe no ombro - estás gelada, e a tremer, não podes estar bem.
A primeira reacção dela foi dar um pequeno passo atrás para aumentar a distância com o desconhecido, - está tudo bem, o problema é só a roupa molhada, em casa já ficarei bem.
Entretanto o rapaz terminou de fumar, e procurou no bolso as chaves de casa. Estava a virar-se de costas para a Clara, e a abrir a porta do prédio quando pára e se vira de novo. - Sou o Nuno, e vivo neste prédio. Sei que não me conheces de lado nenhum, mas também sei que essa chuva não parará em breve e custa-me ver-te a tremer dessa forma.
Clara não queria acreditar no que estava a ouvir, e não sabia o que esperar de toda aquela conversa, tudo lhe parecia estranho, mesmo assim não esperava ouvir o que se seguiu - Tenho máquina de secar roupa, e podes tomar um banho enquanto ela seca, não demoraria....
Terminou com um pequeno sorriso, e Clara não sabia se tinha sido essa a razão porque quis aceitar, ou se foi por causa da voz rouca e sensual dele, ou do frio que a gelava até aos ossos. Um banho quente era tentador, e o facto de ser em casa dum rapaz desconhecido já não parecia assim tão errado.
Ela nada disse, apenas sorriu de volta e deu um passo em frente, na direcção da porta. Subiram até ao segundo andar em silêncio, e ele abriu a porta do apartamento sem mesmo dizer nada. O apartamento era pequeno, mas moderno e tipicamente masculino.
Pararam na sala dele, e olharam um para o outro. Difícil perceber qual o mais constrangido com a situação. Nuno contorcia as mãos nervoso, e Clara não tirava os olhos do chão. Foi um momento mais longo do que eles teriam desejado. Nuno então quebra o silêncio - A casa de banho fica na segunda porta à esquerda, no corredor, posso dar-te uma toalha e deixas a roupa à porta que eu já lá passo a buscar e volto a coloca-la lá.
Enquanto dizia isto dirigia-se em direcção à casa de banho, e a um armário de onde tirou uma toalha.
- Podes demorar o tempo que precisares, quando estiveres pronta eu estarei na sala.
Clara fecha-se sozinha na casa de banho. Repara então que não é só do frio que treme. Talvez, a sua decisão não tivesse sido a mais acertada. Não conhecia Nuno, e não sabia o que a esperava, talvez ele quisesse fazer-lhe mal, e ela não sabia.
Tranca a porta da casa de banho antes de se começar a despir, a seguir olha pelo buraco da fechadura para ter a certeza que pode deixar a roupa do lado de fora da casa de banho, como combinado.
Volta a trancar a porta.
Liga a torneira da água quente e coloca-se debaixo do chuveiro. Um longo suspiro sai sem mesmo ela o pensar, ao sentir a agua quente aquecer o seu corpo aos poucos. Mas o batimento cardíaco não diminuiu ao saber-se nua na casa de banho de um desconhecido. Por segundos passaram-lhe diversas imagens eróticas pela cabeça, imaginando aquele rapaz a entrar pela casa de banho e a agarra-la fogosamente. Coloca um pouco de água fria com o objectivo de clarear as ideias, e dá a desculpa para si mesma que já tinha apanhado uma gripe e estaria provavelmente com febre.
Ao terminar o banho seca-se bem com a toalha e volta a espreitar pelo buraco da fechadura antes de destrancar a porta. A roupa estava impecavelmente enxuta, e ela veste-se rapidamente.
Ao dirigir-se para a sala, o coração começa a bater mais depressa, com receio e também ansiedade, ao não saber o que iria suceder.
Nuno encontrava-se sentado no seu sofá vendo televisão, mal notando o aproximar de Clara.
- Muito obrigada, foste muito simpático por me teres deixado vir a tua casa.
Nuno olha de repente para Clara, dando a impressão que já se tinha esquecido que ela estava lá em casa. - oh sim, não há problema nenhum. Estive a reparar no tempo, está a chover menos, e o vento parece ter abrandado, se quiseres empresto-te um guarda-chuva, tenho mais e não me fará falta.
Clara sente-se um pouco desapontada pela reacção do Nuno, teve que admitir a si mesma, mas vê que é hora de ir embora. - Aceitarei a oferta, se realmente não incomoda.
Nuno então levanta-se pega no guarda-chuva que tem perto da porta de entrada e abre a porta. Encosta-se de lado.
Clara vai a passar por ele e ele pega-lhe no braço fazendo o coração dela disparar. - Não te esqueças do guarda-chuva.
e entrega-lho na mão sorrindo para ela. Clara, sente-se mais uma vez desapontada e ao mesmo tempo aliviada, sorri também para ele - voltarei para o devolver.
E saiu directa para casa com um sorriso nos lábios.
A chuva cai abundantemente, e pessoas conhecem-se por acaso.